Escolha uma Página

Dias 6 e 7 de novembro acontece, no recém-inaugurado Espaço Litoral, a primeira edição do Conexão Caiçara. Em respeito aos protocolos recomendados pelos órgãos oficiais de saúde em relação à pandemia, o acesso ao espaço será limitado a 200 pessoas com entrada por ordem de chegada. Tanto no sábado quanto no domingo, o Conexão Caiçara acontecerá das 12h às 17h com entrada gratuita.

Viabilizado pela Lei Aldir Blanc, com apoio da Prefeitura de Guaratuba, o Conexão Caiçara levará ao público informações sobre a história, meio ambiente, gastronomia e todo o universo caiçara através de uma grande exposição.

Programação

Os Homenageados

Conexão Caiçara reserva homenagens ao músico, regente, produtor, arranjador parnanguara Waltel Branco e ao compositor e escritor, Aldir Blanc.

Sábado 12h30min

A Banda Dinamite Combo sobe ao palco para tocar músicas instrumentais do universo do mestre Waltel Branco. No repertório, as consagradas Zoraia, Meu Balanço, Lady Samba entre outras.

Domingo 12h30min

O Trio na Madrugada, abrem os trabalhos tocando os grandes sucessos de Aldir Blanc.

Atrações 

No final de semana, o público poderá acompanhar a apresentação de fandango e do Grupo Quintal do Samba.

Homenageados

Waltel Branco, o maestro caiçara

Por Sandro Moser

O maior nome da música paranaense veio à luz em território caiçara. Waltel Branco nasceu em 22 de novembro de 1929, em Paranaguá.

Foi meio por acaso. A família tinha decidido passar o fim de semana no litoral e foi surpreendida pelo nascimento do filho, dois meses antes do previsto.

O menino foi batizado Waltel, e não Walter como os pais queriam, por erro do escrivão parnanguara. O nome Waltel, porém, virou uma marca na música brasileira e mundial.

Waltel começou sua trajetória musical aos 12 anos. Como tinha os pulmões fracos, sequela do parto prematuro, não seguiu o caminho do pai, que tocava instrumentos de sopro na banda do Exército, em Curitiba.

Waltel se abraçou ao violão. Teve a resistência da família, pois o instrumento tinha má fama na época entre as famílias tradicionais. Assim, o pai exigiu que Waltel estudasse ao menos violão clássico, canto gregoriano e regência.

Internado em um seminário em Curitiba teve aulas com o maestro chileno Joaquín Zamacois e com outros professores, como Bento Mossurunga e Alceo Bocchino.

Em 1943, um ano antes de ser ordenado padre, formou uma banda de jazz com seu irmão, Ismael Branco, na bateria e Gebran Sabbag no piano.

Nesse mesmo ano, viajou para Cuba acompanhando a cantora Lia Ray como arranjador, diretor musical e violonista do conjunto que ambos formaram.

Na ilha do Caribe, tocou com músicos como Mongo Santamaría e Chico O´Farrill. Segundo alguns estudos acadêmicos no campo da música, esses encontros teriam ajudando a criar a mistura de jazz, música cubana e brasileira, alterando a salsa e, posteriormente, influenciando o jazz fusion, gênero do qual Waltel é considerado um dos precursores.

Em 1950, mudou-se para os Estados Unidos, onde estudou música incidental com Stanley Wilson — badalado compositor de trilhas sonoras de Hollywood na época. Trabalhou ainda com o arranjador Quincy Jones e tocou e gravou com músicos de jazz como Max Bennet e Louis Armstrong.

Durante as décadas de 1950 e 1960, nos Estados Unidos, integrou o trio do baterista Chico Hamilton. Com Stanley Wilson e o violonista Sal Salvador, formando um trio com ele e o cantor Nat King Cole.

Posteriormente produziu um disco para seu irmão, Fred Cole. Mais tarde conheceu a cantora Peggy Lipton e sua irmã, Lede Saint-Clair, com quem se casou.

Trabalhou com o maestro Henry Mancini e desse encontro saiu seu trabalho mais conhecido: os arranjos do tema de “A Pantera Cor-de-Rosa”, filme de 1963 em que o ator inglês Peter Sellers eternizou o inspetor de polícia trapalhão Jacques Clouseau.

Em 1963 conheceu o empresário Roberto Marinho, que o chamou para trabalhar na Rede Globo, onde compôs ao lado de Radamés Gnattali, César Guerra Peixe e Guio de Moraes.

Foi arranjador e regente em grandes festivais de música da TV, entre 1960 e 1985. Participou, como músico e arranjador, de discos de Flora Purim, Copa 5, Dom Um Romão, Dom Salvador e Luiz Carlos Vinhas, entre outros.

Na obra de Waltel merecem lugar especial as orquestrações para trilhas sonoras de novelas da Rede Globo, como “Irmãos Coragem”, “Selva de pedra” e “Escrava Isaura”.

Em 1975, foi lançado o seu álbum autoral mais importante: o cultuado LP “Meu Balanço”, pela gravadora CBS. O disco, que tinha sido gravado 10 anos antes, é repleto de versões swingadas para clássicos do cancioneiro brasileiro e de temas de Waltel.

Entre as décadas de 1960 e 1990, trabalhou como arranjador com dezenas de músicos de renome no Brasil e exterior.

De Roberto Carlos a Cauby Peixoto, de Astor Piazzolla a Baden Powell, de João Bosco a Zé Ramalho, de Novos Baianos a Cazuza e Tim Maia, de Gal Costa a Mercedes Sosa, de Alceu Valença a Djavan.

Em 1959, escreveu os arranjos do LP “Chega de Saudade”, de João Gilberto — simplesmente o mais importante álbum da música popular brasileira. Waltel também regeu a orquestra da gravação, que teve direção musical de Tom Jobim.

Waltel voltou para Curitiba nos anos 2000. Em 2004 foi eleito presidente do Fórum de Música do Paraná.

Ainda em 2004 é destacado no livro “A[des]construção da música na cultura paranaense”, de Manoel J. de Souza Neto. Em 2005, teve um breve relato de sua história contada através do documentário “Descobrindo Waltel”, de Alessandro Gamo, onde ilustres personalidades como Ed Motta, Roberto Menescal e o Maestro Julio Medaglia deram seus depoimentos.

Em 2007 lançou o disco “Meu Novo Balanço” com músicas de outros dos seus álbuns e foi o artista homenageado no Festival de Artes do Estado do Paraná.

Em 2008, foi lançado o livro “A obra para violão de Waltel Branco”, com mais de 40 partituras revisadas por Cláudio Menandro. O livro contém ainda um resumo detalhado de sua biografia.

Em 2012 recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) como compositor, arranjador e multi-instrumentista paranaense — o primeiro título de Doutor Honoris Causa concedido a um músico por essa instituição.

Waltel Branco morreu aos 89 anos no Rio de Janeiro, em 2018, em decorrência de diabetes.

Em 2021, o maestro nascido no litoral paranaense será um dos artistas homenageados no projeto Conexão Caiçara.

Homenagem a Waltel Branco

Banda: Dynamite Combo

Yuri Vasselai (bateria)

Caetano Zagonel (baixo)

Anderson de Lima (guitarra)

Rodrigo Nickel (sax tenor)

Menandro Souza (trompete)

Repertório

  1. The Pink Panther Theme (Henry Mancini)
  2. Peter Gunn (Henry Mancini)
  3. Luar do Sertão (Catulo da Paixão Cearense)
  4. Meu Balanço (Waltel Branco)
  5. Jael (Waltel Branco)
  6. Walking (Walter D’avila Filho)
  7. Zoraia (Waltel Branco)
  8. Right On Bird (Airto Fogo)
  9. Tuesday in Jackson (Airto Fogo)
  10. High Stakers (Airto Fogo)
  11. Tio Macrô (Dom Salvador)
  12. Lady Samba (Renan França)

Aldir Blanc, geógrafo da alma brasileira

Por Sandro Moser

Quando Aldir Blanc nasceu, nasceu no Estácio… E quem disse que a coisa seria fácil?

Hoje, soa apropriado. O berço do samba nacional foi também o parol onde nasceu o maior letrista da canção brasileira.

Aldir Blanc foi cronista, psiquiatra, compositor, escritor, vascaíno, leitor, pai, avô e poeta. Sobretudo, um letrista de canções populares. E nessa grande arte é (prefiro o tempo presente) incomparável.

Para entendê-lo, é bom conhecer um pouco da geografia do Rio de Janeiro em que ele viveu e morreu.

Aldir nasceu no dia 2 de setembro de 1946, no morro do Estácio de Sá. Passou a primeira infância numa casa bucólica da Vila Isabel, na rua dos Artistas, à sombra de goiabeiras imortais.

Mais tarde, dizia que todas as suas letras foram feitas por esse menino que acertava mangas com a atiradeira, pois não tinha coragem de matar os passarinhos.

Voltou para o Estácio e conheceu o inferno na mão de valentões que apavoravam os pirralhos da época, na rua Maia Lacerda.

Casmurro, trancou-se em casa e se tornou o mais voraz leitor da zona norte do Rio. Do capa e espada aos clássicos russos.

Adolescente, cresceu até quase 1,90 m e migrou para o Largo da Segunda-Feira, na rua São Francisco Xavier, na chamada “Tijuca profunda”.

Nesta época, frequentou a “extinta e lindíssima Quadra Calça-Larga” e os ensaios da escola de samba no topo do morro do Salgueiro.

Para os que não conhecem o Rio e sua mitologia, estes parecem apenas nomes de lugares, mas não são.

A Tijuca é o carro abre-alas da zona norte carioca, antítese do balneário ensolarado da zona sul. Um bairro-cidade que vai do “Estácio ao Grajaú e até a Usina, na subida do Alto da Boa Vista”. Segundo o próprio Aldir, “a Tijuca não é um estado de espirito, mas um estado de sítio”.

Aldir Blanc é o personagem central da Tijuca, território poético de toda sua obra.

Aprendeu ali “o olhar cínico, a lírica bandalha”, as manhas da batucada e, claro, a fazer versos. Naqueles morros e ruelas, geografou a alma brasileira.

Sua poesia universal saiu de lá, sem que ele próprio tivesse precisado sair de perto dos “botequins imundos, antros de ronda, vinte-e-um, porrinha, e onde trêmulas mãos de vagabundos batucam samba enredo na caixinha”.

“Aldir foi um homem que conheceu o mundo através dos livros e conhece os homens e as mulheres através das ruas”, disse o jornalista Rodrigo Vianna.

O cronista e o historiador

Dizem que a boa letra de música deve “cavalgar” a melodia das notas musicais. Aldir foi, malandramente, o grande cavaleiro dessas palavras.

Conseguiu o milagre de ser, a um só tempo, um compositor tremendamente popular e sofisticado. Seus sambas são cantados há décadas pelo povo em bares, rodas, ruas e festas.

Sorte do povo que pode cantar o grande cronista do Brasil de seu tempo. O sujeito que melhor traduziu o cotidiano das grandes cidades de um país ao mesmo tempo violento, sensual, profano e religioso.

Em “De frente pro crime”, descreve como ninguém ousaria a cena de uma morte dentro de um botequim. O cadáver no chão é coberto com o jornal do dia (“em vez de rosto, uma foto de um gol…”) e a vida segue seu rumo na grande quizomba nacional.

Aldir também foi um grande historiador. Em 1977, captou o espirito do tempo na letra de “Incompatibilidade de gênios”.

A música, em parceria com João Bosco, foi composta logo que o congresso aprovou a lei do divórcio em 1977. O título se refere ao principal motivo que levava os casais a se separarem (o mesmo até hoje).

E ontem, sonhando comigo mandou eu jogar

No burro, e deu na cabeça a centena e o milhar

Ai, quero me separar…

 

Criou personagens inesquecíveis e os eternizou em seus livros e canções. Nos escritos, usou a própria família e agregados como inspiração — inclusive com o nome e apelido que usavam na vida civil.

Nas canções, deu vida a anti-heróis, como o bêbado vestido de negro que o lembrou de Carlitos. Ou a escriturária Margô, do INPS, que arrebatava os colegas com seus “olhos tais minúsculos aquários de peixinhos tropicais” em “Miss suéter”.

Narrou ao povo a vida de personagens reais como João Cândido, o Almirante Negro, que liderou a revolta da Chibata contra as punições racistas da armada nacional aplicadas a marinheiros negros do Brasil pós-abolição: “rubras cascatas jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas”, de sua obra-prima “O mestre-sala dos mares”.

Apresentou ao país “o irmão do Henfil”, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, símbolo dos exilados pela Ditadura Militar, em “O bêbado e a equilibrista”.

Em “O rancho da goiabada”, cria a cena em que um grupo de trabalhadores braçais descansa durante o intervalo do almoço e passa a sonhar com a grandeza dos carros alegóricos de uma escola de samba.

Aldir escreveu sambas épicos como “Nação”, nostálgicos como “Saudades da Guanabara”, religiosos como “Coisa-feita”, e gaiatos como “A nível de…”.

Suas letras vão do escatológico ao lirismo deliciosamente suburbano. Da mais dura luta política a um grande refinamento existencial e filosófico, como em “Resposta ao tempo”:

E o tempo se rói com inveja de mim

Me vigia querendo aprender

Como eu morro de amo pra tentar reviver

 

Nenhum outro compositor escreveu sobre futebol como ele: do ponto de vista do torcedor sempre assaltado pelas agruras de sua paixão por um clube. Com ascendentes portugueses, Aldir era, ora, pois, Vasco doente.

Em 1966, Aldir ingressou na Faculdade de Medicina, especializando-se em Psiquiatria. Em 1973, após grande trauma familiar, abandonou a cátedra, passando a se dedicar exclusivamente à música.

Surgiu nacionalmente como compositor nesta época, dentro do movimento de músicos universitários que se apresentavam nos estertores da “era dos festivais”.

Seu primeiro grande sucesso era ousado na forma e no conteúdo: “Amigo é pra essas coisas”, a canção-diálogo entre dois amigos, um bemsucedido e outro na lama.

Desde então, escreveu mais de 600 músicas com dezenas de parceiros.

Foi gravado por centenas de cantores, em especial por Elis Regina, que o amadrinhou no começo da carreira.

Escreveu grandes livros e colaborou nos principais veículos de imprensa do país durante décadas como um cronista de sangue azul.

Foi um boêmio lendário; criou e inspirou blocos de Carnaval.

Até que um acidente de carro limitou seus movimentos e o tornou recluso nos últimos 15 anos de vida, passados em um apartamento na Muda da Tijuca, cercado de livros, filhas e netos e de sua esposa Mari.

Em maio de 2020, Aldir Blanc, morreu de Covid-19, aos 73 anos no Hospital Universitário Pedro Ernesto, na mesma Vila Isabel em que nasceu.

Semanas depois, a Câmara Federal aprovou o projeto de lei que destina R$ 3 bilhões para ações emergenciais de ajuda ao setor cultural durante a pandemia.

Chamada oficialmente de Lei de Emergência Cultural, a lei que criou a ajuda necessária aos colegas que choravam sua perda levou o nome do grande poeta numa eterna homenagem.

Justa com a memória de alguém que durante a vida toda lutou por melhores condições de remuneração para os compositores.

Justo também que ele seja o primeiro homenageado da Conexão Caiçara.

Mais importante do que falar sobre ele é escutar sua música.

O Brasil inteiro cabe dentro dela.

 

Tributo a Aldir Blanc

com TRIO NA MADRUGADA:

Ricardo Salmazo (voz e percussão)

Vinicius Chamorro (violão)

Julião Boêmio (cavaquinho)

 

Repertório

1- Resposta ao tempo (Aldir Blanc e Cristóvão Bastos)

2- A nível de… (Aldir Blanc e João Bosco)

3- Amigo é pra essas coisas (Aldir Blanc e Silvio da Silva Jr)

4- Aquele um (Aldir Blanc e Djavan)

5- Cabô, meu pai (Aldir Blanc, Luiz Carlos da Vila e Moacyr Luz)

6- Coisa-feita (Aldir Banc e João Bosco e Paulo Emílio)

7- Coração verde-amarelo (Tavito e Aldir Blanc)

8- De frente pro crime (João Bosco e Aldir Blanc)

9- Gênesis (João Bosco e Aldir Blanc)

10- Incompatibilidade de gênios (Aldir Blanc e João Bosco)

11- Kid Cavaquinho (Aldir Blanc e João Bosco)

12- O mestre sala dos mares (Aldir Blanc e João Bosco)

13- Miss suéter (Aldir Blanc e João Bosco)

14- Nação (Aldir Blanc e João Bosco)

15- O bêbado e a equilibrista (Aldir Blanc e João Bosco)

16- O rancho da goiabada (Aldir Blanc e João Bosco)

17- Prêt-à-porter de tafetá (Aldir Blanc e João Bosco)

18- Saudades da Guanabara (Moacyr Luz, P. C. Pinheiro e Aldir Blanc)